A animação Stranger Things: Contos de 85 estreou com uma temporada composta por 10 episódios na Netflix. A trama se encaixa cronologicamente entre a segunda e a terceira temporadas da série original, trazendo os personagens principais, como Eleven, Mike, Dustin, Will, Lucas e Max, para uma nova missão que envolve mistérios paranormais em Hawkins.
Embora o portal para o Mundo Invertido tenha sido fechado na segunda temporada, a narrativa mostra a presença de mutantes oriundos dessa dimensão sombria, o que renova o suspense, ainda que com uma abordagem mais leve e familiar devido à classificação indicativa PG. A série retorna ao foco nas aventuras do grupo de jovens, remetendo a um clima mais inocente, parecido com o das duas primeiras temporadas do programa original.
A liberdade criativa do formato animado possibilitou a criação de monstros inéditos e visuais distintos, apesar da gradual eliminação do formato “monstro da semana” ao longo da temporada. O tom mais ameno e a linha do tempo escolhida transformam a sensação de terror que marcou a série original, deixando espaço para uma experiência menos intensa e mais voltada para o público juvenil.
Um aspecto que chama atenção é a introdução de novos personagens, como Nikki, que acrescenta dinamismo ao grupo principal, embora seu envolvimento gere algumas inconsistências dentro da cronologia oficial de Stranger Things. Além disso, o elenco de vozes, que não conta com os atores originais, demonstra competência ao imitar estilos e entonações dos personagens, sobretudo Dustin e Max, cujas dublagens se destacam pela semelhança com as interpretações de Gaten Matarazzo e Sadie Sink.
No entanto, a ausência de David Harbour para dublar Jim Hopper é sentida, já que a voz do personagem não manteve continuidade, o que pode causar estranhamento ao público mais atento. Os atores de voz que representam o núcleo juvenil mantêm boa química e interação, mesmo com as gravações feitas separadamente. Já os personagens adultos e adolescentes aparecem em momentos pontuais, como Steve, que surge brevemente no quarto episódio.
A série também revisita temas afetivos já explorados na terceira temporada da série principal, o que pode soar repetitivo para os fãs mais dedicados. Além disso, algumas mudanças na personalidade de Will configuram uma retcon, alterando aspectos já estabelecidos na versão original. O criador explicou que essa produção foi concebida após o desenvolvimento da quinta temporada, o que justifica a falta de referências claras ao que se sucedeu na série principal.
Embora a ambientação em Hawkins e a retomada dos protagonistas sejam pontos fortes, eles acabam gerando problemas de coerência temporal e na construção do universo de Stranger Things. Essa postura tem dividido opiniões, pois a animação pode ser uma porta de entrada para novos espectadores, mas frustrar quem acompanha a saga desde o começo. Muitos consideram que a história teria funcionado melhor se fosse independente, com um elenco e cenário que não interferissem diretamente na cronologia da série original.









