Desde 2016, a Netflix estabeleceu uma presença forte e crescente no mercado cinematográfico do Festival de Cannes, optando inicialmente por investir em filmes independentes internacionais com uma estratégia agressiva. Em 2017, a plataforma apostou em produções próprias como Okja e The Meyerowitz Stories, que chegaram a competir no festival, provocando debates e, consequentemente, um impedimento temporário de participação direta no evento nos anos seguintes.
A partir dessa restrição, o serviço de streaming passou a concentrar seus esforços na aquisição de títulos já avaliados como destaque pela crítica. A postura surtiu efeito em 2019, quando a Netflix garantiu os direitos de dois filmes em Cannes que rapidamente se tornaram referências dentro do catálogo da plataforma. Mesmo durante o ano de 2020, marcado pelo cancelamento presencial do festival devido à pandemia, a companhia manteve sua atividade nas negociações e aquisições.
Em 2024, o investimento da Netflix alcançou US$ 12 milhões para assegurar os direitos do filme musical policial Emilia Pérez, dirigido por Jacques Audiard, focando nos mercados dos Estados Unidos e Reino Unido. Já no ano seguinte, o serviço comprou os direitos exclusivos para a América do Norte do drama May December, de Todd Haynes, pelo valor aproximado de US$ 11 milhões.
O Festival de 2026 reafirmou o compromisso da Netflix com produções de alto impacto. Após uma disputa acirrada contra concorrentes como A24, Neon e Mubi, a empresa conquistou os direitos norte-americanos do filme espanhol Círculo Preto (La Bola Negra). O longa levou ao público uma experiência singular ao apresentar três narrativas interligadas por uma obra inacabada do poeta Federico García Lorca, arrebatando uma ovação de pé que durou 20 minutos, quase igualando um recorde histórico do festival estabelecido por O Labirinto do Fauno, em 2006. Segundo o site oficial da Netflix, o lançamento será acompanhado de uma campanha intensa para premiações e uma ampla exibição em cinemas, estratégia semelhante à adotada para Emilia Pérez.
Outro destaque do ano foi a aquisição da sátira ambiental Sacrifício (Sacrifice), produção em inglês dirigida por Romain Gavras – em sua estreia neste idioma. Protagonizado por Anya Taylor-Joy e Chris Evans, entre outros nomes conhecidos, o filme aborda uma milícia que sequestra celebridades em um evento beneficente. O lançamento nas telas americanas está previsto para o fim do verão ou início do outono, com janela exclusiva na Netflix.
Também em 2026, a opera austríaca Marie Kreutzer trouxe a narrativa de Monstro Gentil (Gentle Monster), centrada numa pianista que descobre o lado sombrio do marido nas redes sociais. A atriz Léa Seydoux estrela o filme, que marca sua estreia cantando, inspirado por uma extensa reportagem publicada pelo jornal alemão Die Zeit. Além disso, a animação Ondas (Waves), baseada na graphic novel de AJ Dungo, conquistou espaço no portfólio da Netflix, contando uma história de amor adolescente marcada por desafios inesperados, com vozes da indicada ao Oscar Stephanie Hsu e do vencedor do BAFTA Will Sharpe. O serviço de streaming considera este título uma aposta significativa para enriquecer seu catálogo de animações independentes.








