A trajetória de Emily em Paris, produzida pela Paramount Television Studios em 2020, ilustra bem as mudanças profundas na dinâmica do mercado audiovisual nas últimas décadas. Embora a série seja frequentemente associada à Netflix, que detém sua distribuição global, a propriedade intelectual permanece com a Paramount, refletindo o modelo híbrido de colaboração internacional que hoje marca o streaming.
Durante os anos 2010, vimos plataformas como Netflix crescerem ao licenciar conteúdos de grandes estúdios como Warner Bros., Sony, Universal e Paramount. Séries icônicas, entre elas Friends e The Office, exemplificam essa prática. No entanto, com a expansão desse mercado, os grandes conglomerados começaram a priorizar suas próprias plataformas, como a Warner com o Max, a Disney com Disney+ e Hulu, e a Paramount lançando o Paramount+.
Esse movimento trouxe um novo paradigma, pois a terceirização do licenciamento passou a ser vista como um risco estratégico. No caso de Emily em Paris, a alegoria da série vai além do entretenimento: tornou-se símbolo do escapismo cultural associado à pós-pandemia, ligado ao fascínio pelo turismo sofisticado e à cultura visual da década recente. A proposta da produção, criada para fomentar o engajamento em redes sociais e fortalecer a retenção de assinantes, reflete também a mudança nas métricas de sucesso do setor audiovisual.
Enquanto a Netflix construiu parte de sua identidade com conteúdos alugados, a chegada das plataformas próprias dos estúdios provoca uma reshaping do mercado, impactando inclusive a continuidade de séries populares. Dados e rumores do site oficial da Paramount indicam a intenção da empresa em manter a posse de propriedades valiosas para alavancar seu catálogo exclusivo, reduzindo o licenciamento a concorrentes diretos.
Essa conjuntura, que evidencia a disputa ferrenha pelo público no setor, reflete um momento de transição para o streaming, de mero complemento da TV tradicional a protagonista na indústria do entretenimento. A complexidade dos acordos que mantêm produções como Emily em Paris na Netflix demonstra a emergência de um mercado em que o controle sobre o conteúdo se traduz em vantagem competitiva definitiva.







