O longa-metragem mexicano I Am Frankelda traz uma narrativa musical situada no universo da fantasia sombria, explorada através da técnica de animação stop-motion. Este trabalho pioneiro no país serve como uma introdução para a série de televisão Livro de Aparições de Frankelda, destacando-se como o primeiro filme nacional completamente realizado com essa metodologia artesanal.
A trama central gira em torno de Francisca, uma escritora do século XIX que lida com os monstros criados por sua imaginação, tentando restabelecer o delicado equilíbrio entre o real e o fictício. A personagem carrega traumas profundos de abuso mental desde sua infância, o que influencia diretamente os contos sombrios baseados nas pessoas que marcaram sua vida com opressão.
Grande parte da história se desenrola no reino sobrenatural chamado Topus Terrentus, um lugar dominado por pesadelos onde as fronteiras entre os mundos começam a se desfazer. Nesse contexto, o príncipe Herneval, uma figura que lembra uma coruja, luta para impedir que Procustes, um manipulador e contador de histórias do reino, tome posse dos escritos de Francisca para alcançar uma influência abusiva.
Visualmente, a animação destaca-se pela riqueza artesanal dos seus bonecos e cenários, com atenção a detalhes minuciosos, como fios de cabelo individuais e objetos desgastados em movimento. Tal escolha confere uma sensação hipnótica às sequências, reforçada pelo uso de diferentes velocidades na taxa de quadros por segundo, oferecendo uma experiência estética única.
Além disso, os ambientes são marcados por uma arquitetura expressiva e paletas de cores intensas, que resgatam elementos da tradicional cultura mexicana, tanto nos aspectos visuais quanto na presença dos personagens. As cenas que mostram a família de Francisca contrapõem-se ao reino dos pesadelos, criando um contraste visual carregado de significado emocional.
A narrativa também traz um olhar sobre a batalha interna de Francisca para aceitar seu talento literário e o reconhecimento externo, enquanto expõe de forma crítica a corrupção política e a manipulação social simbolizadas pela figura de Procustes, que controla seguidores e elimina adversários.
No âmbito sonoro, I Am Frankelda aposta em uma trilha operística que acompanha as emoções do filme, embora seu estilo grandioso possa não agradar a todos os perfis de público. A produção, realizada principalmente com autofinanciamento pelos irmãos Arturo e Roy Ambriz, representa uma conquista rara por sua dedicação e originalidade técnica.
O elenco vocal conta com os talentos de Mireya Mendoza, Arturo Mercado Jr. e Luis Leonardo Suárez, reforçando a autenticidade da obra. A estética do stop-motion remete ao clássico do gênero, provocando uma sensação nostálgica para os entusiastas da animação artesanal.
Este filme é uma celebração da criatividade como forma de resistência às opressões, abrindo espaço para debates sobre a convergência entre arte, cultura e técnica. Segundo o site oficial da Netflix, plataforma onde o título está disponível, I Am Frankelda tem o potencial de se tornar uma referência na produção audiovisual mexicana, combinando inovação técnica com uma proposta temática envolvente.







